[RESENHA] Garota em Pedaços - Kathleen Glasgow

10:00

Quando se é uma garota assustada e cheia medos, com um pai morto e uma mãe abusiva, qual é a melhor saída?
Charlotte está em uma clínica psiquiátrica e seus braços e pernas estão enrolados com bastante gaze.
Sua voz? Sumiu.
Seu corpo? Doendo.
Seu coração? Sangrando.
Depois de ser deixada na porta de um hospital com o corpo coberto de sangue e a mente nublada, Charlie é cuidada e mandada para uma clinica psiquiátrica especializada em garotas com o mesmo problema que ela: a automutilação. No começo, Charlie não se lembra de nada, mas aos poucos, quando as memórias vão surgindo em sua mente, ela deseja não as ter recuperado. O motivo que a levou a fazer aquilo consigo mesma, que a levou a desejar a morte e desaparecer em um buraco negro - se bem que, pensando bem, era isso que sua vida era: um buraco negro sem fundo e que a cada vez que Charlotte achava ter encontrado o fundo, ela caia mais ainda. 
Depois de meses na reabilitação, Charlie é informada que o plano de saúde que pagava sua estadia não estava mais cobrindo as despesas, e que ela teria que se virar sozinha a partir daquele momento. Determinada a não fracassar novamente e ter um futuro descente, ela decide pedir a ajuda de um amigo antigo para ajuda-la em sua nova fase.
Dias depois, Charlie está em uma cidade nova e lutando para recomeçar, mas as coisas nem sempre são como o planejado, e ela será testada a todo momento por seu vício antigo, que está sempre batendo a sua porta e tentando seduzi-la.
Em sua nova vida, Charlotte conhece Riley, um ex-músico de 27 anos cheio de vícios e que desperta algo dentro dela que é incapaz de decifrar. 

Em seu romance de estreia, a autora conseguiu prender não apenas minha atenção, mas também a de Nicola Yoon, autora do best-seller Tudo e todas as coisas. Um livro com reviravoltas, problemas mal resolvidos e traumas incapazes de ser apagados.


Quando comecei a ler esse livro, não me senti apenas na pele de Charlie, mas também se senti como ela. A cada frase, parágrafo e a cada página lida fazia minha empatia pela personagem crescer cada vez mais. Foi bom e ao mesmo tempo aterrorizante o quanto de mim enxerguei em Charlotte.

Kathleen Glasgow conseguiu descrever com maestria exatamente o que cada um de nós - eu, você, a garota do fundo da sala de aula- pensamos nos momentos de desespero profundo, quando a barra está pesada demais para segurar e a luz no fim do túnel parece longe demais para que possamos alcança-la. Ela consegue descrever o desespero, a dor, a angústia; consegue descrever o grito de socorro que fica preso na nossa garganta mas que nunca consegue sair, porquê nós não queremos que saia - não queremos parecer fracos e vulneráveis. 

Charlotte tem demônios internos. Ela não consegue se livrar deles e, quando pensa que está conseguindo, eles voltam com o dobro de intensidade, como se dissessem "Estamos aqui, e nunca deixaremos você ir! Nunca".

Apesar de o livro ser narrado em primeira pessoa e pela perspectiva de Charlie, o leitor não consegue sequer imaginar a profundidade dos problemas da jovem, e o que nos resta é continuarmos nossa leitura e imaginarmos que aquilo tudo não é real, e que não devemos nos preocupar tanto com uma história em livro. Mas essa não é a verdade. A verdade é que garotas como Charlie existem, e elas estão por todos os lados: nas salas de aula, sentadas na última carteira e tentando, sem nenhum efeito, se fundirem com a parede e parecerem invisíveis; se escondendo na biblioteca ou no  banheiro e esperando as horas tortuosas que precisam passar ao lado de outras pessoas passarem rápido, porquê assim elas poderão voltar para o casulo onde se escondem e fazer algo que as faz sentir bem - mas que ao mesmo tempo as machuca-; garotas como Charlie estão por ai, sorrindo e fazendo piadas sobre as coisas mais triviais e tentando parecer relaxadas, mas a verdade é que, se elas abaixarem um mero centímetro da máscara de falsa felicidade, elas não conseguirão coloca-la de volta, e isso faria com que todos soubessem quem ela realmente é.

Esse livro se tornou um dos meus livros favoritos; não porquê gosto de romances conturbados ou de famílias desorganizadas e cheias de traumas. Eu gosto desse livro porquê ele é real, e a realidade vem fazendo falta na literatura ultimamente. As pessoas preferem escrever história sobre a superação - rápida e fácil, ou talvez com uma pequena gota de dor-, em que o personagem sempre consegue sair do fundo do poço e se tornar um exemplo para as outras pessoas que ainda não conseguiram vencer suas batalhas. Mas não é isso que acontece em Garota em Pedaços. A história conta a verdade sobre os nossos vícios, sobre como algumas pessoas conseguem esconder tão bem as emoções e que não percebemos isso até que seja tarde de mais e não haja mais volta; em como é difícil se manter em pé e funcionando, quando tudo o que queremos é nos esconder no nosso próprio mundo e nunca mais sairmos de lá. 

Quote preferido do livro: ''Você pode beber, se arranhar, usar metanfetamina, cheirar cola, se queimar, se cortar, se furar, se ralar, arrancar os cílios ou trepar até sangrar. Tudo é a mesma coisa: automutilação. Ela diz que quando alguém nos machuca ou nos faz sentir mal ou indigna ou imunda, em vez de dar o passo racional de aceitar que essa pessoa é babaca ou maluca e que deve levar um tiro ou ser enforcada e que devemos ficar longe pra caralho dela, nós internalizamos a agressão e começamos a culpar e punir a nós mesmas. E, estranhamente, quando você começa a se cortar ou se queimar ou a trepar porque está se sentindo tão bosta e humilhada, seu corpo começa a liberar aquela merda do sentimento bom chamado endorfina, e você então se sente tão doidona que o mundo é como algodão-doce no melhor e mais colorido parque de diversões do mundo, só que sangrento e cheio de infecção.'' - página 36.

As características gráficas merecem nota 10! A capa, além de estar maravilhosa, ainda conta com o título em alto-relevo. A diagramação e o espaçamento no livro estão no tamanho ideal, assim como a fonte, que em momento algum fez com que meus olhos ficassem cansados da leitura.


Assim como a capa, a lombada do livro está linda!



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11 comentários

  1. Se eu fiquei curiosa do começo ao fim da sinopse? Sim senhora! Só de ler sobre eu fiquei com aquele gostinho de quero mais e de que preciso ler esse livro. Salvei o link pra não esquecer de adicionar a minha wishlist literária

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  2. Não sei porque, mas livros de romance, na verdade livros que contam histórias não me chamam muita atenção. Já li diversos, já comecei varios e não terminei, eu realmente queria gostar, mas prefiro livros que me ensinem, na verdade livros sobre a história da moda e autobiografias, são os que mais me chamam atenção, mas vou te contar, que lendo a sua resenha, eu acho que esse seria um livro que eu leria do inicio ao fim, vamos ver se eu me animo e compro! hahaha

    beijos
    http://stylesense.com.br

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  3. Opa! Adorei a dica :D Adoro romances assim, já vou procurar para ler no feriadão

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  4. Acho que o unico livro de romance que li foi Querido John e eu chorei horrores rsrs acho que por isso eu não tentei de novo. Mas esse livro parece bem real,que coloca em jogo a vida como ela é pra muita gente fugindo daquele cliche de romance que tudo é perfeito ou que a feia se apaixona pelo bonitinho rsrs gostei

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  5. Assim como o título a história me chamou muita atenção, prendeu minha atenção nessa sua resenha. E olha que não sou a louca da literatura, dificilmente algo me chama atenção. Se fosse um filme eu pesquisaria agora mesmo para assistir, mas como é um livro, anotarei aqui para procurar por ele outro dia.

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  6. Gostei e quero ler. Está sendo legal essa onda de escrever sobre esses problemas que estão sendo tão comuns entre nós. Nunca passei por isso, mas quero entender quem já passou. Muito boa resenha.

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  7. O titulo sem duvidas me chamou muita atenção e depois de ler tudo isso pode ter certeza que vou comprar esse livro e ler com mais calma !

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  8. Eu já vi algumas resenhas desse livro que me deixou bem interessada em lê-lo porem não sei se faz muito o meu estilo tenho medo de me decepcionar se me entende, mas com toda certeza ele já esta na minha enorme e humilde listinha, amei seu blog e sua resenha um beijo moça!

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  9. Adorei a resenha do livro. Achei inusitado o início da história, com todo sofrimento dela, e por isso fiquei com vontade de ler mais pra saber em que se sucede. Bjs

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  10. Li sua resenha e parece ser realmente bom! Pra ser sincera em minha opinião o título não é muito atrativo. Mas lendo sua resenha dá vontade de ler. Tem um tempinho que não leio e agora estou mais focada em séries hehe mas quando tiver a oportunidade, vou querer ler este ai! Bjs

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  11. Eu amo ler livros nesse gênero, achi super interessante ler quando leiu uma resenha e me interesso mais pelo livro, principalmente porque já li outros livros dessa autora e achei super legal. Amei a resenha ♥

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